Introdução
A entorse de tornozelo é uma das lesões musculoesqueléticas mais comuns, especialmente entre atletas e pessoas fisicamente ativas. Ela ocorre quando os ligamentos que estabilizam a articulação do tornozelo são excessivamente alongados ou rompidos devido a um movimento brusco, como uma torção ou impacto repentino (Fong et al., 2007). Estima-se que entorses do tornozelo correspondam a cerca de 15% das lesões em práticas esportivas e que sua incidência na população geral também seja significativa, afetando indivíduos de todas as idades (Doherty et al., 2014).
Embora muitas entorses sejam consideradas leves e possam se recuperar naturalmente com repouso e cuidados domiciliares, casos mais graves podem resultar em instabilidade crônica, dor persistente e limitação funcional caso não sejam adequadamente tratados (Dhillon, Patel & Baburaj, 2023). O tratamento adequado é essencial para evitar complicações, especialmente em entorses moderadas a graves, que podem comprometer a mobilidade e a qualidade de vida do paciente (Ruiz-Sánchez et al., 2022). A abordagem fisioterapêutica desempenha um papel fundamental na reabilitação, auxiliando na recuperação da função articular, no fortalecimento muscular e na prevenção de recidivas (Marín Fermín, Al-Dolaymi & D’Hooghe, 2023).
Definição e Causas Mais Comuns
A entorse de tornozelo é uma lesão caracterizada pelo estiramento ou ruptura dos ligamentos que estabilizam essa articulação. Essa condição ocorre frequentemente devido a torções ao pisar de forma inadequada, quedas ou durante a prática esportiva, especialmente em esportes que exigem mudanças rápidas de direção, saltos e aterrissagens, como basquete e futebol (Fong et al., 2007). A entorse lateral do tornozelo, envolvendo os ligamentos talofibular anterior e calcaneofibular, é o tipo mais comum (Doherty et al., 2017).
Classificação das Entorses
As entorses de tornozelo são classificadas em três graus de gravidade (Ruiz-Sánchez et al., 2022):
Grau I (leve): Estiramento leve dos ligamentos, com dor mínima, leve edema e pouca ou nenhuma perda funcional.
Grau II (moderada): Ruptura parcial dos ligamentos, causando dor moderada, edema mais significativo, hematoma e dificuldade para caminhar.
Grau III (grave): Ruptura completa de um ou mais ligamentos, resultando em dor intensa, grande inchaço, instabilidade articular e incapacidade de suportar peso.

Sintomas e Sinais de Alerta
Os principais sintomas da entorse de tornozelo incluem dor localizada, edema, hematomas e dificuldade para mover o pé ou suportar peso (Dhillon, Patel & Baburaj, 2023). Sinais de alerta que indicam a necessidade de avaliação médica imediata incluem:
Inchaço intenso e deformidade visível;
Incapacidade de movimentar o tornozelo ou apoiar o pé no chão;
Sensação de instabilidade e fraqueza ao caminhar;
Dor persistente mesmo após medidas iniciais de tratamento, como repouso e aplicação de gelo (Marín Fermín, Al-Dolaymi & D’Hooghe, 2023).
Recuperação Natural vs. Intervenção Fisioterapêutica
Nem todas as entorses de tornozelo requerem fisioterapia. Em casos leves (grau I), a recuperação pode ocorrer naturalmente com repouso, aplicação de gelo, compressão e elevação do membro afetado. No entanto, quando há comprometimento maior dos ligamentos, a fisioterapia torna-se essencial para garantir a recuperação completa e prevenir complicações (Doherty et al., 2017).
Casos que Exigem Fisioterapia
A fisioterapia é altamente recomendada nos seguintes casos:
Entorses moderadas e graves (graus II e III): Rupturas parciais ou completas dos ligamentos exigem reabilitação para restaurar a mobilidade, força e estabilidade do tornozelo (Ruiz-Sánchez et al., 2022).
Persistência de dor e edema: A dor prolongada e o inchaço podem indicar uma cicatrização inadequada, necessitando de intervenção para acelerar a recuperação e evitar sequelas (Dhillon, Patel & Baburaj, 2023).
Limitação de mobilidade e instabilidade articular: Se o paciente apresentar dificuldade em movimentar o tornozelo ou sentir que ele está instável ao caminhar, a fisioterapia pode ajudar a restaurar a função articular (Terada, Pietrosimone & Gribble, 2013).
Recorrência de entorses: Pacientes que sofrem entorses frequentes podem ter fraqueza muscular ou déficits proprioceptivos, que devem ser tratados para evitar novos episódios (Marín Fermín, Al-Dolaymi & D’Hooghe, 2023).
Prevenção de Sequelas e Instabilidade Crônica
A reabilitação adequada é fundamental para prevenir a instabilidade crônica do tornozelo, uma condição que pode comprometer a qualidade de vida e aumentar o risco de novas lesões. A fisioterapia ajuda a fortalecer os músculos ao redor da articulação, melhorar a propriocepção e restaurar a amplitude de movimento, reduzindo a probabilidade de recorrência da entorse (Dhillon, Patel & Baburaj, 2023).
Como a Fisioterapia Ajuda na Recuperação
A fisioterapia desempenha um papel essencial na reabilitação da entorse de tornozelo, promovendo a recuperação funcional e prevenindo complicações. As principais abordagens incluem:
Controle da dor e do edema: A utilização de técnicas como eletroterapia, crioterapia e bandagens funcionais auxilia na redução da dor e do inchaço, facilitando o processo de recuperação (Ruiz-Sánchez et al., 2022).
Recuperação da mobilidade e flexibilidade articular: Exercícios terapêuticos são empregados para restaurar a amplitude de movimento do tornozelo, evitando rigidez e limitação funcional (Terada, Pietrosimone & Gribble, 2013).
Fortalecimento muscular e reeducação proprioceptiva: A reabilitação inclui exercícios de fortalecimento dos músculos do tornozelo e treinamento proprioceptivo para melhorar o equilíbrio e prevenir novas lesões (Dhillon, Patel & Baburaj, 2023).
Retorno seguro às atividades físicas: A progressão gradual dos exercícios garante que o paciente recupere a funcionalidade do tornozelo de forma segura, reduzindo o risco de recidiva e complicações (Marín Fermín, Al-Dolaymi & D’Hooghe, 2023).
A abordagem fisioterapêutica personalizada garante uma recuperação eficaz, reduzindo o tempo de afastamento das atividades diárias e esportivas, além de minimizar o risco de instabilidade crônica no tornozelo.
Dicas para Acelerar a Recuperação
A recuperação eficaz da entorse de tornozelo depende de medidas imediatas e da adesão ao tratamento fisioterapêutico. Algumas estratégias fundamentais incluem:
Cuidados imediatos após a lesão (protocolo PRICE): O protocolo PRICE (Proteção, Repouso, Gelo, Compressão e Elevação) é essencial para reduzir a inflamação e a dor logo após a lesão. A aplicação de gelo nas primeiras 48 horas auxilia no controle do edema, enquanto a compressão e a elevação ajudam a minimizar o inchaço (Ruiz-Sánchez et al., 2022).
Importância da adesão ao tratamento fisioterapêutico: Seguir corretamente as orientações do fisioterapeuta é crucial para uma recuperação completa. A reabilitação guiada contribui para a restauração da função articular e previne sequelas, como a instabilidade crônica do tornozelo (Dhillon, Patel & Baburaj, 2023).
Exercícios simples para recuperação e prevenção: Exercícios de mobilidade, fortalecimento e propriocepção devem ser incluídos na rotina para melhorar a estabilidade articular e reduzir o risco de novas entorses. Movimentos como elevação dos calcanhares, caminhadas na ponta dos pés e equilíbrio em superfície instável são recomendados para acelerar a reabilitação (Doherty et al., 2017).
Conclusão
A fisioterapia desempenha um papel essencial na recuperação das entorses moderadas e graves do tornozelo, ajudando a restaurar a funcionalidade articular, reduzir a dor e evitar complicações futuras. Um tratamento adequado não apenas acelera a reabilitação, mas também previne problemas crônicos, como instabilidade e recorrência de entorses (Ruiz-Sánchez et al., 2022).A adesão ao tratamento fisioterapêutico é fundamental para garantir uma recuperação completa e segura. Pacientes que apresentam dor persistente, edema prolongado ou dificuldades na mobilidade devem procurar um fisioterapeuta especializado em ortopedia para um plano de reabilitação adequado às suas necessidades (Dhillon, Patel & Baburaj).
Referencias
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